Microjornalismo sob demanda

Há alguns dias perguntei no Facebook: E se o jornalismo fosse sob demanda?

Chegaram respostas muito diferentes e a boa discussão se instaurou. A Carol Régis de Lucia, a Lílian Viana Cananéa e a Bettina Monteiro indicaram que já é assim. #IroniaModeOn, claro! A ideia de pautas seguirem exigências de anunciantes, acionistas e de outros detentores do poder político-financeiro é velha. O Felipe Speck disse que a audiência já demanda. Nessa esteira, o Thiago Araújo lembrou de projetos crowdsourcing e crowdfunding, como o Spot.us, para jornalismo e da demanda declarada das marcas comerciais, no esquema branded content.

O Marcelo Soares ponderou com a sempre inquietante “depende do que tu entende por jornalismo” e o Jorge ExuCaveiraCover Rocha propôs um jornalismo sob umbanda 😀

Para além das observações pertinentes – todas muito verdadeiras – e inquietantes, notei que a demanda do público por informação não é uma coisa óbvia. Talvez nem mesmo para o próprio público.

Na última sexta eu voltava do trabalho e enfrentei uma demora além do habitual no trânsito já carregado de um começo de noite na Av. Santa Fé, em Buenos Aires. Finalmente o ônibus onde eu estava cruzou com a Av. Intendente Bullrich, onde os bombeiros jogavam água no asfalto e havia uma aglomeração de carros da polícia, ambulâncias e gente. Óbvio que eu quis saber o que aconteceu. Procurei no Twitter, por informações próximas a mim, e encontrei apenas esta menção ao fato:

Imagem4 Até agora, dois dias depois, o colega não me respondeu. E fico me perguntando o porquê dessa dependência cega pela confirmação da polícia. Não por ser a polícia, mas por ser uma fonte oficial. Não sei como ele recebeu o reporte do acidente. Mas o fato é que havia centenas de pessoas passando por este cruzamento naquele instante e outras tantas seguiam ali, entre pedestres, comerciantes locais e prestadores de serviço da situação. Ou seja, gente para contar a história não faltava.

Conheço bem essa dependência limitante do jornalismo pelas fontes oficiais. Ela beira a cegueira em alguns casos. Ou o comodismo. Enquanto não vem o comunicado oficial, não há fato, não há realidade, não se faz jornalismo. E não me diga que são as fontes oficiais que asseguram a credibilidade jornalística porque isso é terceirização de responsabilidade.

Enfim, o fato é que eu fui para casa com a demanda por uma informação X, que nenhum meio noticiaria pelos próximos 40 minutos e nem eu encontrava tweets a respeito. Ah, se eu pudesse falar com aquelas pessoas que estavam ali à volta… Ah, se eu pudesse perguntar a elas o que houve? Minha motivação? Entender o que comeu duas horas da minha cansada noite de sexta. Digamos que isso tivesse impactando mais a minha vida do que a morte do traficante Playboy (#ironiagain). Eu poderia descer do ônibus uma parada antes e me aproximar do burburinho, talvez correr algum risco, ou então poderia disparar uma demanda por notícia.

Se você lê essa “demanda por notícia” como “sugestão de pauta”, sorry, não é por aí. O que entendo por demanda é uma pergunta, um pedido por uma informação àqueles que estão diretamente capacitados a respondê-la. Não precisa ser teu amigo, teu contato no Facebook. Mas é fundamental que tenha uma relação muito próxima com o fato que o legitime enquanto cidadão repórter (ou village reporter, esse conceito já é velho).

Se você imagina que essa relação com o fato é espaço-temporal, está no caminho, mas não termina por aí. Estar imbricado a uma situação é mais do que presenciá-la como testemunha. É mais que estar no local, geograficamente, na hora de um fato X. Essa espécie de “repórter sob demanda” é o sujeito expert pela própria natureza – ou pelo próprio cotidiano.

Pergunte-se: sobre o que você saberia informar? Então eu abro algumas hipóteses…

(  ) as linhas de ônibus que você usa diariamente
(  ) ou o caminho que faz até o trabalho
(  ) aquele tratamento na clínica X
(  ) como é crescer sem pai
(  ) fazer aquela pós
(  ) comer comida de rua
(  ) morar na avenida X
(  ) fazer acupuntura
(  ) usar GNV
(  ) experimentar swing
(  ) inseminação artificial
(  ) ter usado alguma droga
(  ) alugar apartamento na região X
(  ) fazer exercícios cedo no parque
(  ) ser diabético
(  ) ser sobrevivente de um acidente ou desastre
(  ) etc

Cada pessoa tem múltiplas circunstâncias que legitimam a autoridade sobre seus relatos. Seja pelo perfil, pelo histórico ou pela causalidade do momento, cada indivíduo tem condições de dar o melhor relato sobre este ou aquele tema. Nem todos os relatos terão o valor de uma notícia, dependendo do enfoque. Mas as possibilidades de atender à demanda por informações que são tão naturais para cada um de nós são infinitas e vão muito além de termos presenciado uma certa situação no local X.

Por isso, o jornalismo sob demanda vai muito além do hiperlocal, embora também o considere entre seus matizes.

Será tudo notícia?

Depende da demanda. O que trabalhamos até hoje no jornalismo como critério de noticiabilidade está associado, em algum momento, à escalabilidade do fato. Só tem importância aquilo que atinge muita gente. E na busca desesperada por resultados quantitativos, explicitamente impulsionada pelos departamentos comerciais, engatilhamos um tiro de canhão.

Na ambição de atingir todo mundo, não passamos de paisagem no olhar cada vez mais desacreditado da população em relação ao jornalismo. Nos afastamos do público sob a falsa sensação de estarmos falando para ele, aquilo que ele mais necessita saber. Então pergunto: ele quem, coleguinha?

Impedidos por 200 anos de mergulhar nas microrrealidades, perdemos a mão de nossa função medular de amparar o estar-no-mundo do ser humano, de identificar a demanda dos indivíduos porque ele só poderia existir se fosse muitos.

Ocorre que o digital trafega por outra via. A personificação da experiência no meio online extrapola os algoritmos que te oferecem o produto que você justamente estava procurando. Ela cria a necessidade de um processo informativo que realmente atenda às necessidades de cada um. E se não for assim, não serve. É por isso que o jornalismo, do jeito como é feito há 200 anos, já não é atrativo como antes. Porque mesmo segmentado, ele é feito para o estereótipo da massa que não sabe o que quer. Ocorre que essa pasteurização chamada notícia já não satisfaz, não apraz, ao contrário, espanta e faz a indústria editorial entrar em crise. Uma crise, diga-se, que não foi gerada pela digitalização da notícia ou pela falência do modelo de negócio massivo irresponsavelmente reproduzido no digital. É uma crise humana, de entendimento sobre para que serve o jornalismo na vida de cada um.

Talvez, inverter a lógica da produção e da distribuição seja um caminho possível para retomar a relevância do jornalismo no cotidiano dos indivíduos. Inverter no sentido de entender novas (micro)escalas e, sobretudo de subverter o fluxo da informação.

Enquanto quebramos a cabeça para produzir conteúdo incerto na falsa esperança de satisfazer a uma necessidade enigmática de um alguém desconhecido, que tal cada um criar sua demanda pela notícia e fazer o jornalismo emergir?

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2 thoughts on “Microjornalismo sob demanda

  1. Eu vejo a cauda longa da informação tomando forma com esse teu texto. O jornalismo talvez não devesse procurar ‘respostas’ para sua crise não no conteúdo (que já é um resultado), mas sim na informação é o que torna tudo palpável. Se o jornalismo se justifica no ato de certificar informação mais do que nunca ocorre mais do que nunca a morte lenta de um modelo baseado em hard news. E isso também pode ser justificado a partir de comunidades/bairros/cidades/países tem cada vez mais pessoas e portanto mais e mais histórias e pontos de vista diversos. Uhu que louco! haha

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    • Amo, Pedroca! 😀
      Tu conseguiu captar a essência que tem por trás de todo esse raciocínio: a cauda longa.
      Digital segue outra lógica. E enquanto estivermos aplicando os valores do analógico, o modelo do analógico, os critérios de noticiabilidade do analógico… putz, esquece!

      Liked by 1 person

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